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imersão.

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Poucas coisas me desconcertam tanto como o acto de ler um texto e não o entender. Nos últimos tempos tenho sido frequentemente visitado por esta realidade. Sinto uma espécie de transtorno obsessivo-compulsivo, que provoca um mal-estar generalizado na mente e no corpo e que obriga à imersão total no texto até obter um grau de compreensão satisfatório. É um desafio apetecível e viciante em que o entusiasmo da chegada à interpretação correcta,  faz perceber um crescimento pessoal ao nível do pensamento, da construção de significados, da lógica e da reflexão, e que ergue  paredes sólidas do edifício da identidade como ser pensante.

Hoje, já não conseguimos evitar o afunilamento existente no território das verdades, direccionado para uma simplificação que faz emburrecer. A reflexão, a análise de textos, argumentos, opiniões, e a sua contextualização, quase deixaram de fazer sentido e somos agora meros adeptos de facções e lados polarizados. Todo o pensamento está condensado em publicações das redes sociais, às quais reagimos como fervorosos apoiantes ou encarniçados detratores. O importante neste contexto não é compreender, mas escolher um dos lados da barricada e atirar nos outros a percepção de que sabemos o suficiente para dar uma opinião.

Termos a consciência das nossas dificuldades de compreensão, procurarmos o encaixe do que lemos no nosso universo de pensamentos e saberes, com abertura à reconstrução de significados e opiniões, e rejeitarmos a simplificação resumida que é mastigada pelos outros, é essencial para crescermos no entendimento de que assim, dificilmente seremos manipulados, e de que, por outro lado, tem de haver menos presunção: Afinal, o mundo todo não nos cabe na mão.

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