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a profecia como nome.

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As ruas da pequena cidade eram o seu palco de actuação. Diariamente, procurava e percorria sem descanso as mais movimentadas e cheias de gente. Tornara-se um especialista em marketing, sempre atento à melhor oportunidade, para abordar a multidão indiferente e apressada que compunha a paisagem urbana.

Quem à nascença lhe atribuiu o nome não percebeu a carga de missão nele contida. Terá sido uma ânsia profética, na tentativa de manipular o destino, indicando-lhe um propósito. Mas as intenções não são mais que isso: intenções. A crua realidade não se comove com profecias, nem com nomes cheios de intenções grandiosas. A realidade, numa torrente furiosa, despejou-o na miserável condição de pedinte, sem ele perceber como tudo aconteceu. O corpo esguio, o olhar inquieto, o cabelo rebelde, a pele tostada pelo sol, denunciavam o seu estatuto, mas nunca o seu nome. Quem se cruzasse com ele imaginaria talvez um Zé-Ninguém, indigno sequer de um olhar atencioso.

Naquela manhã, ele fazia o percurso costumeiro e sentia uma especial sonolência e enfado. Era mais um dia na negação constante da profecia contida no nome que lhe dava a identidade, a comprovar o cativeiro à mercê da fatalidade irreversível. Um grito lancinante despertou-o da letargia, e, de súbito, viu-se como a pessoa mais próxima do encontro inevitável entre uma criança inadvertida e um automóvel impiedosamente letal. Num gesto rápido e certeiro, lançou o braço heróico que deteve o petiz e o salvou da tragédia anunciada. Ficou ali, agarrado àquela criança, paralisado pelo pensamento do que poderia ter presenciado. A multidão, antes indiferente, acorreu e rodeou-o com olhar de admiração.

— Como te chamas rapaz?

— Salvador... — Respondeu ainda com a voz abalada.

Aquele foi o momento que preencheu o espaço vazio entre a profecia e o seu cumprimento. O propósito, afinal, tinha um nome.

inclinado.

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Se alguma vez virmos populares furiosos invadirem o parlamento português, deveremos nessa altura agradecer à nossa classe política (governantes e oposição), pelo seu fraco desempenho, e ao jornalismo, ávido do "soundbite", que se faz em Portugal.

Nestes debates para as Eleições Presidenciais, as consecutivas perguntas feitas por medida e propícias a um candidato antidemocrático, que lhe oferecem a possibilidade de explanar a seu bel-prazer uma agenda de populismo e ódio primário, hão-de fazer crescer, sem resistência, rancores latentes na sociedade portuguesa, com consequências que se poderão aproximar às das que estamos a observar nos Estados Unidos da América.

da centralidade do elevador.

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Nos últimos passos do ano, e quando lá ao fundo, já se antecipa o acender de luzes de um cenário novo e esperançoso, há sempre a tentação de olharmos para o que foi o correr dos trezentos e muitos dias que ficam para trás, e o que mais marcou o nosso quotidiano neste período.

Quero fazer a ressalva de que o que direi não traz nenhuma pretensão de distanciamento ou superioridade moral. A apreciação que faço é em grande parte motivada pela observação dos meus comportamentos e pelos dilemas que se levantam à minha identidade.

A minha epifania de 2020 dá-se na percepção de que as conversas de elevador (aquelas que com a música do mesmo, preenchem de inutilidade os silêncios incómodos, quando o espaço e a proximidade das pessoas são inversamente proporcionais à familiaridade que temos com elas), dizia eu, as conversas de elevador, deixaram o recôndito espaço que lhes dá nome e assaltaram todo o território público das nossas interacções.

Se estivermos atentos, logo perceberemos que os nossos dias acumulam "conversas de elevador" consecutivas, inconsequentes e muitas vezes cansativas. São, no limite, conversas perversas, porque dão exposição a outra realidade, que é a de nos dizer que, em geral, nada queremos uns dos outros, além da simulação da empatia, premeditando a utilidade que possa advir de uma superficial boa impressão. A construção de um espaço de impessoalidade, que ocasionalmente extrai pendor de pessoalidade na intriga bisbilhoteira, seca tudo à nossa volta, e leva-nos muitas vezes ao caminhar solitário em ruas vazias de norte.

Tendemos a valorizar a ilusão do conforto envolvente do ruído, para calar os silêncios incómodos e facilitar a fuga à meditação interior e à partilha com significado. A arena das redes sociais, grupos de whatsapp e afins, ultimamente muito elogiados por nos concederem acesso fácil à comunicação em tempos pandémicos, amplifica este bem-estar forjado. Tal como numa conversa de elevador, é lá que fazemos a busca incessante pelo poder de tracção e atracção dos likes ao riso fácil e à indignação instantânea, desde que estes sejam suficientemente inconsequentes e nos alimentem a auto-estima com artificialidade.

Esforço-me para ultrapassar a minha habitual repulsa aos balanços e resoluções desta época. Se comecei este texto à laia de balanço, ouso terminá-lo com um desejo. Que 2021 nos traga conversas cheias de significado, que nos desafiem e alimentem saudavelmente e nos proporcionem oportunidades para espalharmos humanidade de carne e osso, desenvolvendo uma solicitude autêntica no caminhar da sociedade e do “Outro”. Que o façamos para além dos nossos interesses particulares e muitas vezes em oposição a estes. Que fiquemos muitas vezes presos no tal elevador, mas libertos da banalidade, atraídos pelo teor das conversas e pela troca de experiências de vida.

Saibam que para mim já quase só faz sentido o ápice do encontro com pessoas que tenham gente dentro.

percepções.

Muita da dificuldade em nos entendermos acontece porque vivemos enclausurados num mundo de percepções diferente do dos outros. Achamos sempre que as nossas posições são mais perfeitas e, por vezes, inegociáveis ou inconciliáveis com a diferença.

A história original do Natal, dá-nos uma lição incrível a este respeito. Fala-nos de alguém que deixou o seu mundo de percepção divina e veio viver as sensações, os dilemas, as fraquezas e forças das diversas visões humanas. Este gesto que restaurou a comunhão entre o céu e a terra, trouxe uma alegria esperançosa a um mundo cheio de certezas morais e religiosas, mas sombrio e desigual na sua essência.

Talvez nos falte recuperar o ensinamento deste gesto. Talvez não sejamos humildes o suficiente para entendermos a grandeza contida no acto de caminharmos em direcção ao mundo de percepções dos que nos rodeiam, e o enriquecermos e honrarmos com entendimento e aceitação. Eu reconheço que não estou perto sequer desta atitude.

Que o nosso Natal, apesar de fisicamente distanciado, seja invadido por uma proximidade e comunhão de percepções que nos faça recuperar a alegria e a esperança.

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estados físicos.

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O estrondoso bater do mar nos rochedos, evoca o eterno confronto entre a imobilidade petrificada e o movimento fluido e ágil, entre a solidez rochosa e a destreza moldável, entre a firmeza e a flexibilidade, entre a teimosia e a docilidade.
O bater estrondoso do mar nos rochedos, é também uma evidência da cúmplice parceria de impacto mútuo entre as duas matérias. O rochedo molda o movimento das águas no imediato, mas a perseverança líquida, ao longo dos tempos, deixa marcas indeléveis no rijo e imóvel calhau.

o vento da mudança.

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Nunca me incomodou o vento gélido que ataca o rosto. A sensação que tenho é a do cumprimento de uma função revigorante e tonificadora que apela à nossa tenacidade.

O vento é esse elemento peculiar que traz a tempestade, participa nela e afasta-a no tempo determinado.

Invisivel mas sentida dimensão da natureza, agora, em instantes de demonstrada fragilidade, o vento move-se como uma enorme mão invisível, mima-nos o rosto, e converte-se numa calorosa brisa de tempos de mudança.

 

imersão.

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Poucas coisas me desconcertam tanto como o acto de ler um texto e não o entender. Nos últimos tempos tenho sido frequentemente visitado por esta realidade. Sinto uma espécie de transtorno obsessivo-compulsivo, que provoca um mal-estar generalizado na mente e no corpo e que obriga à imersão total no texto até obter um grau de compreensão satisfatório. É um desafio apetecível e viciante em que o entusiasmo da chegada à interpretação correcta,  faz perceber um crescimento pessoal ao nível do pensamento, da construção de significados, da lógica e da reflexão, e que ergue  paredes sólidas do edifício da identidade como ser pensante.

Hoje, já não conseguimos evitar o afunilamento existente no território das verdades, direccionado para uma simplificação que faz emburrecer. A reflexão, a análise de textos, argumentos, opiniões, e a sua contextualização, quase deixaram de fazer sentido e somos agora meros adeptos de facções e lados polarizados. Todo o pensamento está condensado em publicações das redes sociais, às quais reagimos como fervorosos apoiantes ou encarniçados detratores. O importante neste contexto não é compreender, mas escolher um dos lados da barricada e atirar nos outros a percepção de que sabemos o suficiente para dar uma opinião.

Termos a consciência das nossas dificuldades de compreensão, procurarmos o encaixe do que lemos no nosso universo de pensamentos e saberes, com abertura à reconstrução de significados e opiniões, e rejeitarmos a simplificação resumida que é mastigada pelos outros, é essencial para crescermos no entendimento de que assim, dificilmente seremos manipulados, e de que, por outro lado, tem de haver menos presunção: Afinal, o mundo todo não nos cabe na mão.